Run for your life


Eu só queria sair correndo. O mais rápido, para o mais longe. Se correr aliviaria tudo o que meu coração guarda? Não sei. Mas meu mundo está em posição de partida, prestes a correr, suar, me distanciar o máximo que eu puder de todas as pessoas, de todos os pensamentos, de toda a realidade.

A sensação de ficar é angustiante. O estático incomoda quando meu maior desejo é não estar aqui. Estou inquieta por dentro, e preciso estar em uma perfeita calmaria por fora, e isso me introduz a um estado de contradição, o que me inquieta ainda mais. E tudo se traduz em uma agitação fora de ordem. Um caos.

Essa mecânica do meu íntimo quase me faz sentir a adrenalina dançando sobre meu corpo enquanto minhas pernas ultrapassam uma a outra, outra a uma, em busca de sessar essa contradição ao atingir o ápice da inquietude, e quem sabe, depois mergulhar no descanso da vida, um domingo à tarde, um feriado na segunda.

Você deveria ser meu


Você passou por mim no shopping e nem me viu. Também não fui até você porque estava com sua nova namorada, Melanni. Fiquei de longe, olhando os dois de mãos dadas, pensando que ali já foi nós dois um dia. Ou que ali poderia ainda ser eu.

Eu não vou mentir, eu me culpo porque a gente não deu certo. Me culpo, na verdade, por todos os meus relacionamentos que não deram certo e mais ainda porque já perdi a esperança de achar alguém como você.

Pensei, mil vezes naquela noite, a fatalidade de ter deixado escapar das minhas mãos o homem da minha vida. Na época, me parecia certo seguir em frente, mas eu nunca segui. Você sofreu e eu não liguei. Você chorou e eu não enxuguei suas lágrimas. Agora você passa por mim e eu me lamento: ela está com o homem que era pra ser meu.

Na porta da geladeira


Peguei aquela chave da sua casa que fica dentro do jarro de margaridas da varanda e invadi seu apartamento. Não tava nem aí. Eu sabia que você estava no trabalho e não chegaria. Eu me senti uma criminosa, invasora de domicílio, louca; mas o primeiro culpado foi você que roubou meu coração. Sou apenas vítima das circunstâncias.

Por mais que seja comum, nunca me imaginei vivendo isso. Não, eu não aceito o fim do nosso relacionamento. Pra mim não existe isso de "acabou; fim; me esqueça" que você falou arduamente no telefone enquanto eu segurava o choro do outro lado da linha. Não quero ser a ex que enche seu saco pra voltar, mas quero que perceba que as coisas não morreram entre nós.

Então entrei na sua casa pra despertar a psicopata  que existe em mim. Não quebrei nada (pode checar), mas abri seu guarda roupa pra sentir seu cheiro. O cheiro do meu amor. Deitei na sua cama e quase decifrava o seu corpo e seu cafuné. Baguncei os lençóis (já estavam bagunçados e nem me preocupei em arrumar) e deixei resíduos de mim lá. Ou mechas do meu cabelo.

Abri a geladeira e bebi seu refrigerante, fiz café e organizei seus produtos porque estavam uma loucura. Eu chorei também, porque a gente não acabou. Não sei o que deu em você, mas perceba o quanto de amor há na minha saudade.

Não mude a fechadura da chave. Não incomodarei mais. Não dessa forma. Mas vou te perturbar até você perceber que eu tiro seu sono por umas noites, mas a maioria delas é deixando sua cabeça nos sonhos do nosso futuro. Você esqueceu o quanto nos amamos?

Ligue de volta.

Te amo,

Se eu gosto de você?


Acho que gosto de você. Não é como se eu quisesse gostar ou tivesse mil motivos pra isso, mas um pensamento que me persegue o dia inteiro. Em uma das minhas confusões mentais você chegou e ficou (como se tivesse entrado no meu quarto escuro, mas esperado o dia amanhecer pra olhar nos meus olhos).

Você deixou que eu me sentisse bem comigo mesma, independente do meu jeito de ser (louco, por sinal). Você olhou meus defeitos e sorriu, e abraçou minhas qualidades. Desse jeito, fez de mim uma prima-vera; embaralhou todas as cartas do baralho antes de achar a rainha de copas e me levar à conclusão de que eu talvez gosto de você. 

Você ficou calado e depois mandou uma mensagem dizendo que estava com saudades. Disse que odiava "bom dia", mas falou comigo cedinho na segunda-feira. Contou que estava ali de bobeira, mas sabia que eu estaria lá e que sairia correndo assim que o visse, para dar-te um  abraço. 

Você me levou à loucura, quando me fez querer buscar a sanidade dentro de uma pergunta interna bem atordoada de sentimentos e pensamentos que focavam em você. Nunca me disseste nada parecido com o amor, mas como me olha, me aceita e me refaz, deixou em mim gotas de suor de uma ilusão de ser amada. 

"Ei, se eu tiver coragem de dizer que eu meio gosto de você, você vai fugir a pé?"

Jogo do desinteresse


Ia terminar aqui dizendo que sinto muito por tudo o que não aconteceu entre nós. O que aconteceu foi muito bom, mas isso já deixei pra trás; o passado não importa pra mim. Nosso erro foi a omissão. O não fazer, não falar, não convidar, não puxar papo na madrugada mesmo que o outro estivesse on-line no WhatsApp, não se importar nem fazer carinho. Eu não entendo esse "gostar" moderno; virou um jogo de desinteresse. Quem mostrar menos interesse, ganha. Mas o problema é que o prêmio mudou.

Antes, a gente queria amor, a gente queria fazer o outro feliz e ser feliz junto, a gente queria carinho e atenção; mas hoje, me parece que o prêmio é ser o menos envolvido na relação. Difícil é dizer que gosta, que sente saudades. Se for assim, parabéns, você ganhou. Esse é um jogo o qual eu não quero jogar, porque não me interessa em nada o não gostar.

Termino afirmando, ao invés de lamentando o que não aconteceu, que eu fiz o meu possível. Eu tentei gostar de você. Mas é impossível sentir algo tão puro por alguém que ainda está na fase de jogos, e ainda precisar amadurecer para perceber que no jogo do amor não existem regras e que a vida é pra valer. O desinteresse não leva ninguém pra frente, mas congela cada um dos participantes em um tempo instável e angustiante. Por isso, não quero, nem nunca quis, fazer parte disso.

Fim de tarde


Amo fim de tarde porque a cor do céu é linda. Amo fim de tarde porque é fim de expediente e aquela sensação de alívio. Amo fim de tarde porque é hora de liberdade, hora de rezar o terço. Amo fim de tarde porque é transição; não é permanente, e sim uma metamorfose. Amo fim de tarde porque é o momento esperável do dia e ao mesmo tempo traz um espetáculo inesperado, novo a cada dia. Amo fim de tarde porque as nuvens que são tão evidentes se movem com calma. Amo fim de tarde porque tem gosto de amor e café e o cansaço bom que faz valer a pena um banho quentinho. Amo fim de tarde porque eles são serenos. Amo fim de tarde porque eles não decepcionam e aparecem na janela todos os dias. Amo fim de tarde porque eles fazem valer uma pausa na rotina pra apreciar. Amo fim de tarde porque eles são exatamente como nós: lindos, momentâneos e intensos. Amo fim de tarde porque representam tudo o que queremos ser: inesperados, calmos, certos e serenos.

Obrigada por ser meu amor


Era tarde e frio, mas meu coração estava aquecido por você. Depois de muito tempo no escuro, você acendeu uma chama e mim. Eu já havia esquecido como é bom ter alguém pra fazer sorrir, mas você me lembrou que o amor existe e que as manhãs podem ser coloridas.

Sempre pedi a Deus alguém pra fazer bem. Mas sabia que era um pedido difícil. Me me envolvi com pessoas erradas, que me fizeram sentir uma mulher errada. Mas o erro nunca esteve em mim, e sim, em criar expectativas em relacionamentos que nunca poderiam passar de remédio para carência.

Então, mesmo que me ajoelhasse e pedisse, eu não esperava receber alguém tão bom quanto você. Por muito tempo preferi ficar só, pois não achava que ninguém era suficiente para me completar. Não porque eu era alguém demais, mas porque eu me sentia complicada, difícil de lidar. Afinal, ninguém nunca soube antes...

Então passei muito tempo só. Primeiramente, me culpando. Depois, procurando entender. Quando percebi que o problema em abstrato não era eu, removi todos os vestígios de fins de relacionamentos que haviam em mim e passei a me aproveitar e me curtir. Meio que deixei pra lá esse papo de ter alguém.

Mas hoje você me faz acreditar. No amor, no futuro, em nós dois. Você veio em um encaixe perfeito e me faz perceber o quanto tempo eu perdi distorcendo a realidade de uma forma fútil. O amor não se define em palavras, gestos nem emoções. O amor se define em alguém. E meu alguém é você. Meu amor é você.

Quintal de infância


Algumas plantinhas me permitem respirar um ar de infância. Acho que é porque quando eu era pequena morava em casa e o quintal era enorme bem cuidado. Quando eu chegava da escola, a tarde, e depois de fazer as tarefas, ia brincar. Eu era conhecedora daquele jardim e às vezes fada, ou uma aventureira perdida na floresta, uma cozinheira que arrancava alguns galhos para fazer o almoço, eu era parte daquela natureza e era feliz.

Hoje, só vejo a orquídea (que se chama Janiscleide) perto da janela do meu quarto. Tem os jarros na recepção do prédio também, mas eu não mais vivo um jardim, ou nem mesmo em um jardim.

A vida se tornou assim: cinza e de passos rápidos e curtos. Não tenho mais tempo de chegar no quintal pra sorrir. Só tenho um prédio com uma varanda que não cabe uma rede e uma pressa que não me deixa aproveitar essas coisas boas como parar, olhar ao redor e respirar um ar puro, fundo e colorido.

Trocamos a vida pela existência. Estamos em modo piloto automático, passando os dias sem lembrar ao certo os pequenos prazeres como sentir um jardim e olhar o pôr do sol sem olhar o relógio. Os passos rápidos são um resumo do nosso dia-a-dia e as dores de cabeça uma saudade de quando éramos crianças e podíamos ser quem quiséssemos em um quintal.

Hoje, não temos mais essas possibilidades de "ser". Somos o que devemos ser e ponto. Perdemos a nossa infância não porque crescemos, mas porque esquecemos como é simples ser feliz.

Como amar certo?


Sou errada. Errei em te querer, em achar que esse sentimento poderia ser recíproco. Me apego rápido. Sou assim, ligeira pra amar e fácil pra criar. O problema é que minha mente vaga demais pelo futuro. Eu imagino, projeto e abasteço meu coração pra viver momentos que são somente nuvens.

Preciso aprender a ter sentimentos. Não sei se eles vêm de dentro pra fora ou de fora pra dentro, mas eles me atingem mesmo sem eu querer. E eu fico assim, dedicando todos os meus pensamentos e segundos pra um amor imaginário. Acabo achando que há algo de errado em amar. Mas amar é certo. O problema não é amar, mas esperar que o outro nos ame da mesma forma.

Por ousadia da vida, o amor pode ser mascarado. Tanto pra mais quanto pra menos. Facilmente confundido, a gente vai vivendo e sempre achando que estamos certos. E amamos certo. Mas, o contrario do que dizem as nossas experiências passadas, o amor é único.

Não sei. Tenho sentido essa sede de definir o amor, mesmo que de forma confusa. A questão é que meu mundo está se colorindo sozinho e isso é bastante inesperado. Afinal de contas, não tem como sermos arco-íris sozinhos. Pelo contrário, precisamos misturar as cores. Mas de toda forma, vou deixar essa aquela da minha vida transformar meu coração, que mesmo que de forma abstrata, consegue amar.

Eu não vou entender nunca.

Enquanto o descanso não chega



 Às vezes eu tenho a sensação (na verdade, não sei se é um desejo ou uma sensação) de que o mundo ao meu redor vai desabar; tudo vai cair e não dá nem pra mensurar se eu irei restar perante à destruição. Dentro de mim tudo é caos e fora de mim tudo é caos. Estou em guerra com o mundo e em guerra comigo. O cenário é pesado e frio. Eu espero a qualquer momento tudo desabar.

Já me cansei muitas vezes por conta da rotina, mas sempre chega o fim do dia e a gente deita na cama, o corpo vai relaxando e a gente aguenta até o fim de semana chegar. Agora o que me cansa é a vida e eu ainda espero a hora da cama, mas quando eu deito a cabeça no travesseiro eu não descanso como acontece com o corpo. Eu fico a mil por hora, lamentando o que não está dando certo, procurando erros e estraçalhando acertos. Quando, enfim, consigo dormir, tenho pesadelos com o que ainda pode dar errado.

Como a esperança é a última que morre, tem horas que acho que tudo é uma ilusão ou chego a acreditar que tudo está perto do fim. Mas até nos intervalos fica difícil mensurar quanto vai durar o programa.

Queria passar uma mensagem positiva, como sempre gosto de fazer em minhas crônicas, e eu sei que vai ter. Mas quando eu descobrir o lado bom disso tudo ou a luz no fim do túnel, eu volto aqui com um sorriso de letras e o coração descansado, como no primeiro dia de férias da escola, quando a gente acha que se livrou de um pesão (por um tempo bom).

Cafeteria


Você é uma saudade. Meus olhos focam o seu sorriso na foto e meu arrependimento de não ter te beijado uma vez mais. Pra sempre vai ficar em mim aquela sensação de quando te vi pela primeira vez. Você vindo em minha direção, seus olhos centrados em mim fazendo valer a pena todas as vezes que chorei por estar só.

Naquela mesa da cafeteria conversamos por horas e era como se nos conhecêssemos há anos. O meu peito não bastava para sentir tudo o que explodia em mim. Eram fogos de artifício de todas as cores brilhando dentro dos meus olhos. Aquela tarde nunca bastou pra mim e por isso que se transformou em saudades, pra eternizar o sentimento maior que eu, pra cicatrizar no meu coração uma promessa muda de amor.

A partir de então, você foi minhas manhãs e noites. Você se tornou um pensamento permanente e um desejo. Todas as vezes que eu digo que te amo, eu extraio de mim esse puro desejo. E por isso que eu te amo mais ainda: você desperta em mim esse amor de criança, inocente e ingênuo, sem maldades, que não pede nada em troca, que brinca e fala sério.

Você despertou o de mais verdadeiro que existe em mim. Obrigada por me fazer querer ser uma pessoa melhor e por ser o melhor, mais divertido, mais sincero e único amor. Eu te amo com todas as minhas forças, todo o meu coração, todo o meu corpo, todo o meu sorriso. Obrigada por me amar. Por fim, obrigada por me deixar te amar.

O inquietante silêncio que faz bem


O silêncio é a maior forma de autoconhecimento. Não é a única, mas é a mais intensa. Quando silenciamos (não somente a boca, mas também a mente e o acelerar do coração) somos capazes de ouvir um murmuro de iniquidade vindo de algum lugar dentro de nós. Assim, entramos em um estado de desconforto, inquietação porque estamos nas nossas próprias companhias, e, por mais que a gente negue, existem muitas coisas que nos incomodam em nós mesmos.

Apesar de delicado, é importante que exercitemos o silêncio. E não somente isso, mas que busquemos nos conhecer. Mas essa busca pelo "eu", não deve ter como objetivo se definir. Nós, seres humanos, somos seres indefiníveis, constantes, pois estamos sempre inovando e vivendo inédito.

Diante disso, a pergunta certa para se conhecer bem não seria "quem eu sou?", e sim, "quem eu quero ser?". É fato que nossas ações revelam esse "eu" que buscamos, mas o nosso verdadeiro "eu" se revela nas nossas reações. Ou seja, a gente age como gostaríamos de ser, mas reagimos como, de fato, somos. Por isso que ouvimos muito dizer que "não conhecemos as pessoas". A verdadeira personalidade de alguém se revela em momentos desafiadores, em que somos obrigados a dar uma resposta imediata em uma situação inquietante. 

Por conta disso, o desconforto do silêncio é fundamental. Porque são nesses momentos de rasgar o coração que a gente vai formando nosso verdadeiro "eu" e exercitando ser quem a gente gostaria. Somente através do profundo autoconhecimento somos capazes de nos entender, e assim, nos transformar para que, de fato, sejamos aquilo que queremos ser.

... E que a cada dia desejemos ser uma pessoa melhor.
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