O inquietante silêncio que faz bem


O silêncio é a maior forma de autoconhecimento. Não é a única, mas é a mais intensa. Quando silenciamos (não somente a boca, mas também a mente e o acelerar do coração) somos capazes de ouvir um murmuro de iniquidade vindo de algum lugar dentro de nós. Assim, entramos em um estado de desconforto, inquietação porque estamos nas nossas próprias companhias, e, por mais que a gente negue, existem muitas coisas que nos incomodam em nós mesmos.

Apesar de delicado, é importante que exercitemos o silêncio. E não somente isso, mas que busquemos nos conhecer. Mas essa busca pelo "eu", não deve ter como objetivo se definir. Nós, seres humanos, somos seres indefiníveis, constantes, pois estamos sempre inovando e vivendo inédito.

Diante disso, a pergunta certa para se conhecer bem não seria "quem eu sou?", e sim, "quem eu quero ser?". É fato que nossas ações revelam esse "eu" que buscamos, mas o nosso verdadeiro "eu" se revela nas nossas reações. Ou seja, a gente age como gostaríamos de ser, mas reagimos como, de fato, somos. Por isso que ouvimos muito dizer que "não conhecemos as pessoas". A verdadeira personalidade de alguém se revela em momentos desafiadores, em que somos obrigados a dar uma resposta imediata em uma situação inquietante. 

Por conta disso, o desconforto do silêncio é fundamental. Porque são nesses momentos de rasgar o coração que a gente vai formando nosso verdadeiro "eu" e exercitando ser quem a gente gostaria. Somente através do profundo autoconhecimento somos capazes de nos entender, e assim, nos transformar para que, de fato, sejamos aquilo que queremos ser.

... E que a cada dia desejemos ser uma pessoa melhor.

Novo amor antigo


Se o interfone tocasse e fosse você, eu prenderia meu cabelo em um nó e colocaria aquelas havaianas vermelhas e o vestido florido para atender a porta. Chegando lá, você comentaria sobre o porteio que mesmo depois depois de todos esses anos ainda está trabalhando no meu prédio e que ele ficou feliz em te ver. Eu odiava quando você dizia que ia pra casa e o porteio roubava mais meia hora do seu tempo pra falar bobagem, mas adoraria saber que antes de subir até o quinto andar vocês falaram sobre o azulejo novo do prédio e outras mudanças que aconteceram por aqui enquanto você não estava por perto.

Pediria para Deus que me desse um minuto para olhar todas as feições do seu rosto e a barba que você deixou crescer. E o nosso primeiro abraço ia ser bem simples, pra saudade permanecer em cada um de nós quando sentássemos no sofá pra conversar. Sem duvidas, eu faria silêncio pra você olhar a sala de estar que pintei ano passado e o porta retrato que não tem mais a sua foto, mas uma minha sozinha em uma viagem para a Argentina no começo desse ano.

E eu sei que temos muito a desculpar um ao outro e muito pra perceber um no outro, mas o que eu ando curiosa pra sentir é o seu cheiro, porque sei que a um ponto desses o perfume que te dei no primeiro ano de namoro já se acabou. Então ia ficar bem de perto pra sentir o novo você e falar um pouco de tudo que me aconteceu enquanto você não estava aqui, talvez nem querer saber todas as pessoas que te fizeram feliz esse tempo eu quero, mas ouvir sua voz que já estava adormecida dentro de mim vai fazer bem.

Depois de tantas palavras, um beijo cairia bem e eu te daria o anel que ainda guardo pra você me devolver quando sentir que é a hora certa. Iríamos, juntos, prometer apagar tudo o que passou, para podermos construir um "nós" novo porque eu já não mais sou a mesma, nem você, embora o sorriso permaneça lindo. Por fim, espero que goste da mulher que me tornei e saiba que, apesar de não estar perto pra ver, teve de suas mãos em muito de cada dia que vivi. Um dia eu já disse que te amava, e isso era real. Mas não vou repetir as mesmas palavras porque elas falam de um amor velho, que passou. A partir de agora, vamos construir um novo "eu te amo".

O dia mais importante da minha vida


Hoje é o dia mais importante da minha vida. Não foi o dia em que me formei, nem o dia em que participei de um retiro que mudou a minha vida, nem será o dia que publicarei um livro ou me casarei. Hoje.

Esse dia pode não ser o mais feliz, nem ter nenhuma comemoração muito empolgante ou ser um marco na minha história, mas é o dia mais importante da minha vida porque é ele que eu estou vivendo. Não podemos viver do passado. Ele já aconteceu, já acabou, já foi.

E como o futuro não me é garantido em nada, me resta o agora para viver. Só posso, então, fazer do hoje o dia mais importante da minha vida. Porque é ele quem vai ser o meu passado amanhã, é sobre ele que eu vou construir o meu futuro. E não há nada mais importante do que isso. Viver o agora de forma intensa.

Viva o desapego


O desapego é um processo que acontece nos limites do nosso coração. É abrir o coração não simplesmente para o novo, mas para o inovador. O receio do desapego vem do medo do vazio, afinal de contas, desapegar é doar algo que esteve a tanto tempo guardado, e para quem ainda não o pratica isso parece trazer todo o vazio do mundo.

No entanto, o desapego dá lugar para o inovar: tirar algo que não estava fazendo bem ou não estava sendo útil e reservar para o melhor, uma novidade; mesmo que não venha de imediato. Essa é a grande diferença entre desapegar e descartar. Quando a gente apaga alguma coisa de nossa vida, o que chega é o vazio, a saudade e a dor, mas ao contrário disso, o desapego preenche e restaura.

Sendo um processo, é preciso começar com passos pequenos, com calma, com a alma. Pequenas coisas já são importantes em uma caminhada de passos lentos, seja uma roupa que você não usa mais, um sapato que a sola descolou, o brinco que perdeu o par, a pessoa que não faz mais bem e até mesmo certezas que levamos como absolutas e nos impedem de viver - ou pelo menos enxergar - as mil possibilidades que a vida e o desapego nos oferecem.

Apesar de parecer difícil, com o tempo se torna automático, e, sem nem perceber a gente tá vivendo uma vida mais leve; não porque está vazia, mas porque não tem coisa desnecessária pesando... Graças ao desapego!

Ponto de vista


Ele me disse que o amor aconteceu pra ele. Tarde, e doentio. Há de se queixar da abstratividade dos efeitos dessa droga que causa alucinações e insônia, dentre tantos outros efeitos que não podemos medir a extensão. Amar faz a gente sair de si. Ficar em outrem, um amado. Amar nos desenvolve um medo como se não já trouxéssemos o suficiente da nossa infância. Amar não é bom. Amar corrói e arrasa. Mesmo que tarde, mesmo que depois de toda a parte boa da juventude, ele aceitou o convite pra amar. Fora da idade e da língua de origem.

Ele me disse que o amor aconteceu pra ele. Tarde, e intenso. Há de se descobrir a abstratividade dos efeitos desse sentimento que nos leva a sonhar e passar noites em claro, dentre outros prazeres que não podemos medir a extensão. Amar faz a gente sair de si. Ficar em outrem, o amado. Amar nos dá um novo significado e um medo, renovando a nossa infância. Amar é bom. Amar constrói e abrasa. Ainda que tarde, renova nossa juventude, então ele aceitou o convite pra amar. Viver uma nova idade e língua de origem.

Centro do coração


Você escolheu morar na periferia do meu coração. Assim, quando quer, é fácil fugir. Decidiu não ir tão a fundo em mim, não chegar no centro e correr o risco de se apaixonar. Você quer me amar, mas não quer se entregar, e isso não é amor. O amor é completo, pleno, sem volta. E você...? Ah, você já foi e voltou diversas vezes. Isso não é amor.

O amor não é fácil; é realmente um caminho sem volta; não uma casa nas redondezas de um coração. Isso não é amor. Você não é amor. O amor se entrega, você se abstém. Me evita, me aproxima só para sentir meu corpo, nunca meu coração. E isso jamais poderá ser chamado de amor.

Diante do seu desamor, não peço, não pressiono, nem espero você chegar no núcleo de mim. Isso é profundo demais, para pessoas profundas demais que sentem profundo demais. Você é raso e manifesto. Você é sem sentido. Ou somente não faz sentido ter toda essa estrutura para agregar o amor e se abster disso.

O amor não se implora. Por isso, amar é silêncio. É no silêncio que amamos da forma mais profunda. Isso é amor. Por isso me calo, sabendo do meu coração profundo que nunca será suficiente para abrigar o seu. Não porque o seu é grande demais, mas porque você se contenta com a periferia e eu preciso viver todas as extensões do amor. O amor é intenso.

Como você está?


Ele quis saber mais sobre mim e sobre meu dia. Perguntou, dentre tantas coisas, sobre a felicidade e os sonhos. Eu, tímida, respondia com toda a cautela do mundo, receosa de deixar escapar entre as minhas palavras o quanto eu estava apaixonada pelo sorriso dele.

Fiz de tudo; voltei a pergunta, falei do meu dia e não disse que pensei nele quando ouvi aquela música de Magic! mas, como amante das palavras, sei que elas são facilmente substituídas por um sorriso e um olhar.

Ser olhada é a melhor sensação do mundo. Não olhada como quem passa por uma mesa cheia de homens em um bar, mas olhada de maneira profunda, daquela forma que sabemos que estamos sendo vistas de dentro pra fora, do coração para os olhos, dos sonhos para a realidade. Aquele olhar de quem tá gostando do que vê e de quem quer ver mais.

Há uma certa expectativa que colocamos nas pessoas e ela não é baseada em nada além da imaginação. Nossa mente pode ir longe, embora a minha passe o dia inteiro na mesma pessoa, no mesmo sorriso e na mesma pergunta, que é dita de forma sincera por ele: como você está?

- Estou pensando em você.

Para minha irmã mais nova


Quando nasce o segundo filho, principalmente com idade próxima do primeiro, os pais são recomendados a incluir o primogênito nos cuidados com o bebê. Tem que ajudar a dar banho, colocar pra dormir, fazer carinho... Já fui muito essa irmãjudante, é a irmã ajudante. Depois o bebê vai crescendo e acaba sendo o mais esperto da turma da escolinha porque é muito incentivado pelo mais velho. Irmãnitora... É a irmã e monitora. E aí, o irmão mais novo vê o mais velho como modelo, e quer imitar tudo o que o outro faz... Irmãdelo, é a irmã e modelo, foi até difícil de entender essa fase, mas ok né. Então as idades começam a se "estabilizar", e passando por quase as mesmas coisas, dá pra trocar uma experiência, falar das paqueras e dos pais... Irmiga, é a irmã e amiga. E quando o mais velho tira carteira de motorista é uma festa, porque vai ter quem busque nas festinhas.... Irmãtorista, a irmã motorista; mesmo que odeie dirigir, tá com a mão no volante (o cabelo assanhado e o pijama por baixo do vestido) pra cima e pra baixo. Mas a adolescência vai chegando e o irmão mais velho fica dando conselhos e "se metendo na sua vida" o tempo todo, vira um chato.. É a irmãe.

É que, nós, mais velhos, já crescemos pra cuidar, ajudar, ensinar, corrigir. Aprendemos a ser assim. A gente é um pouco de tudo e muito desse amor fraterno que não tem condições, limites nem fim. E de tudo que somos, em diferentes fases da vida, tem uma coisa que nunca podemos deixar de ser: irmãos. Digo isso todos os dias para minha irfilha (essa é a nossa fase atual, eu sou a irmãe): Carol, nós somos irmãs. Você pode ter outras ajudas, outros modelos, caronas, amigas e tem nossa mãe maravilhosa, mas irmã, queridinha: SÓ EU. E nada pode tirar isso de nós. Dia qualquer eu escrevendo isso, e você continua sendo irritada e irritante, mas eu te amo mesmo assim. E claro, você tem a melhor irmã do mundo (isso é de praxe). Eu amo você e amo ser sua irmã (já que não posso ser minha própria irmã).

Me deixe entrar


Por que a gente não senta uma hora dessas naquela praça perto da sua casa pra ter uma conversa à toa? Por que não passamos na cafeteria cara perto do shopping para que você fale sobre você? Por que não viramos uma noite no FaceTime pra que eu possa fazer você sorrir? Por que você se fechou tanto pra mim?

Quando a gente se isola demais com medo de se machucar, acaba machucado pela solidão. Eu sem bem disso, porque já vivi algumas desilusões de amor (que são esses momentos que a gente descobre que ainda não é amor o que a gente sentiu) e sei que nada parece real. Mas eu sou real, e venho com toda a minha sinceridade te ajudar a reparar o seu coração. Tentar encontrar esse amor que todos falam que existe, todos procuram.

Se deixe amar e ser amada. A gente só sabe se o amor chegou se experimentar. O erro faz parte do acerto e as cicatrizes são naturais em um coração de carne. Viver é deixar-se ser machucada mesmo sem nunca ter a intenção de machucar. Preciso que me deixe entrar, tire essa barreira que vive apoiada nos seus medos e me deixe ser a sua coragem.

Largue essa mania de achar que tudo vai doer. O verbo aqui é outro: amar.

Somos tempo


Somos o agora, mas não podemos negar que somos resíduos do passado. E além disso, o querer do futuro. Somos a definição mais imperfeita do tempo, afinal de contas, andamos com relógio, mas não conseguimos andar com os ponteiros. Eles passam, e nós ficamos. E muitas vezes, nós passamos e eles vagam o caminhar.

Embora a gente se esforce diariamente para deixar pra lá muita coisa do passado,  resultamos de cada uma de nossas experiências já vividas. Levamos como aprendizado, traumas ou lembranças todos os segundos e situações que se foram, mesmo que os detalhes não venham à mente. Temos essa tendência de ver a história se repetindo quando não se repete, e nosso presente se torna como um gravador antigo, que traz tudo novamente ao agora.

Sendo assim, esse nosso "agora" é uma simples divisão, uma instabilidade forte entre essas experiências que já passamos e os sonhos. Somos, dessa forma, uma passagem árdua do tempo sob nosso olhar enquanto esperamos um outro "eu" chegar. É uma ponte.

Nosso futuro, entretanto, é ainda mais cheio de experiências e histórias já contadas ou não. Se nem o passado é estável por conta das peças que nossas mentes pregam com nós mesmos, o futuro não passa de uma ilusão. Podemos contar os segundos, os dias, mas nunca o futuro. Ele não chega, nem vai embora. E enquanto a gente o espera, sendo tempo, vamos vendo as horas passarem enquanto simultaneamente passamos pelas horas sem nada mudar.

Meu lado direito


Isso não é vida. Dor não é vida. E juro que tento me lembrar como é viver. Sofrer é um canto de amor, mas quando o sofrimento chega na dor desesperadora de ungir o núcleo de todo o corpo, não é vida. Não é amor. Não é paz, nem mesmo sofrer. É dor.

E, diante dessa eterna sensação de dor, e do quanto ela cresceu mais do que eu na vida, eu me preparo para abortar toda a minha felicidade de amanhã. Já sei que acordarei com dor. É desses pesadelos que parecem nunca, jamais, acabar.

Nesse dia a dia insosso e insolente o que me preocupa é não poder descansar desse gemido que dói os ouvidos. Sem parar. É dor. Não é vida. A vida se deleita onde a dor há de se estancar. Sem logo assim, sei que ela vai passar porque eterno não há de ser aquilo menor que impossível.

Incompreensão


Não me sinto compreendida. Assim, fico só. Como um alguém tão singular, complexo e deslocado que nunca encontrará sua outra metade. Me sinto só. No jeito, nas opiniões, nos gostos e nos sábados, estou sempre única. Não há quem acompanhe os meus passos. É o resultado de não saber se expressar: eu sou mal interpretada.

Nunca quero o bem, não intento em ajudar nem completar. Afinal, como completar um mundo do qual eu pareço não me encaixar? Essa singularidade que me preenche e não quer esvaziar me deixa vazia: sem ninguém. Deitada na cama, a luz apagada e os olhos vagando pelo escuro. É difícil ser só e estar cercada de pessoas que não te enxergam como verdadeiramente se é. Ou não te enxergam de forma alguma.

Mas então, o que ser? Como ser um alguém explícito e plural? Perdi a noção da realidade e dos sonhos quando me vi desentendida. E agora se mostra muito difícil ir adiante ou voltar atrás nessa era em que as pessoas só aceitam quem anda na mesma direção. Não entendo mais desses passos distintos que apontam cada tropeço meu. Eu pensava que o bom de toda essa dinâmica de sociedade era a solidariedade, mas não há compreensão e eu já parei de tentar entender o motivo de eu sempre estar errada há muito tempo.

Sou só diferente e só. Quis ser compreendida ou ao menos aceita, mas somente eu vou me preocupar com as minhas feridas acusadas pelos calos dessa solidão. Antes um silêncio que me entenda do que milhares de pessoas ao meu redor que só me resumem em incompreensão.
Camille Reis. Todos os direitos reservados.©
Design e codificação por Sofisticado Design