Olhos de bluetooth


Dentro de nós existem sentimentos, verdades, emoções que não conseguem ser expressos por meio de palavras. Mesmo para aquelas pessoas que tem o dom de escolher exatamente as letras certas a serem ditas, existe um limite muito claro em relação àquilo que somos capazes de externar pela fala. E antes que surja a pergunta "então, como colocar pra fora tudo isso que existe dentro de nós que precisa, precisa, precisa ser mostrado?", já respondo: através do olhar. Nossos olhos são capazes de transmitir informações de tamanha profundidade, que esquecemos (ou não conseguimos), ao longo da história da humanidade, inventar palavras capazes de "concretizar" isso de tão poderoso existente no universo chamado "eu".

Exatamente como um bluetooth, nossos olhos, ao entrar em contato com outros olhos, transmitem para eles essas informações que habitam em nosso ser, e compartilha-se, de uma maneira extraordinária o que precisa ser compartilhado, mostrado, externado. É uma conexão perfeita. Simplesmente, é pelo olhar que criamos uma intimidade com o outro, mostrando a ele o que de verdade existe em nós. É impossível mentir, ocultar, disfarçar. É lindo deixar-se ver "nu" para o outro, e vê-lo da maneira mais pura que se vê alguém, permitindo-lhe entrar, sendo bem vindo. É pelos olhos que se fala o que palavras jamais poderão dizer. O olhar no olho é o ato mais poderoso que somos capazes de fazer por nós e pelo outro.

Não precisa pensar muito para perceber o que nos vêm fazendo, cada vez mais, evitar esse contato. A tecnologia, nos aproxima tanto das pessoas... quer dizer, temos tantos meios para falar com quem está no mesmo bairro, na mesma cidade ou em outro país que a comunicação se tornou tão fácil e acessível enquanto o saber se comunicar difícil e raro. Explicando melhor, nunca estivemos tão conectados com o mundo e com o próximo como atualmente. É a era da comunicação. Comunicar-se é um grande resumo do que fazemos durante nosso dia; falamos com 5, 10, 50 pessoas ao mesmo tempo no whatsapp, sabemos como foi o dia dos nossos seguidores do twitter e a roupa que vestia os do instagram, e com a comunicação caindo na "mesmice", acabamos desaprendendo como se comunicar.

Quer a prova disso? Quando estamos com nossos amigos a primeira preocupação é: vamos tirar uma self e postar no instagram. Depois faz check in no face, comenta nas fotos que acabaram de ser postadas, responde uma mensagem no whatsapp e... acabou o contato!! Cadê o toque, o riso (kkkkk não vale), o olho no olho? Por que é tão difícil esquecer o celular por um momento e curtir intensamente o "ao vivo e a cores"? E assim, vemos a dificuldade de usar o bluetooth de nossos olhos. Parece desnecessário. Como quando inventaram o whatsapp: as fotos, músicas, videos que usávamos a ferramenta para compartilhar, hoje rapidinho já está chegando em vários celular ao mesmo tempo através do aplicativo. Chega a ser antiquado usar bluetooth, né?

Mas não podemos deixar nossos olhares caírem no esquecimento. Ao contrário do que acontece no mundo virtual, nosso bluetooth não pode ser substituído. Já sabemos que palavras não bastam, e os emoticons do whatsapp também não conseguem externar o que existe em nós. A ausência do olhar no olho do outro traz consequências devastadoras. A insensibilidade ainda não é a mais grave, mas é através dela que deixamos viver entre nós o desamor. Faltam sorrisos sinceros, ou até mesmo sorrisos, falta compreender o outro, e sentir compaixão; falta olhar nos olhos do outro e se permitir amá-lo, permitir sentir aquilo que o outro sente e vê-lo, não como semelhante, mas como parte do meu ser. A mais grave das consequências é, julgo eu, uma consequência que atinge a si mesmo. Tudo o que não conseguimos colocar pra fora, entra e se transforma dentro de nós; cheios daquilo que precisa sair (sejam coisas boas ou coisas ruins), nós acabamos superestimando nossa capacidade e uma hora vai explodir. E ninguém vai querer estar por perto pra ver.

A mensagem que fica, claramente é: olhe. Se você não quiser fazer isso pelo outro (porque o desamor já tomou conta de você), faça por si mesmo; não deixe que seus sentimentos, suas verdades e emoções fiquem presos dentro de você. Nunca me esquecerei de quando ouvi Pe. Fábio de melo dizer: a maior prova de amor é conseguir dizer ao outro que o ama, com o simples gesto de olhá-lo. É lindo mostrar o que de belo existe em nós, e necessário mostrar o que de angústia possa existir. Vejo nas redes sociais tantas pessoas se mostrando vazias, quando na verdade estão transbordando de matéria que precisa ser compartilhada. E o vazio é porque o que está preenchendo não é suficiente; é preciso preencher-se do outro, sentir o outro, amar o outro, olhar o outro. Olhe...


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