Deixa respirar


Todo o ar que expiramos precisa sair. Respirar é um processo natural e necessário, do qual não podemos nos privar. Respirar é deixar que entre e saia o ar de dentro de nós. Podemos passar alguns segundos sem respirar, claro, mas não aguentamos muito e para recuperar o fôlego temos que ter um esforcinho extra. Quando o processo é automático demais, não paramos para pensar na dinâmica dele, muito menos na sua importância ou no fundamento. O ar todo mundo sabe que é obrigatório entrar e sair, mas também precisamos parar para olhar nossas outras respirações, se não, uma hora vamos ter que lutar para recuperar o fôlego. E de que fôlego estou falando? O fôlego da vida.

Adoro uma metáfora. Mais da metade das coisas que falo ou escrevo são metáforas, mas é a facilidade de entendermos um assunto tão subjetivo quanto àqueles relacionados ao coração e ao ser que me instiga a usá-las. Nós somos um baú e à medida que vivemos ele se enche de coisas advindas das nossas experiências, sonhos, pensamentos e realizações. Temos que deixar as coisas entrarem no nosso baú - se não fica vazio, e isso se chama "não viver" - e temos que deixar que aquilo que está somente pesando saia também.

Primeiro podemos falar sobre o processo de inspiração. Não devemos ter medo de deixar que as pessoas, os sentimentos, as situações ou o que seja entrem dentro de nós. Não devemos ter medo de nos apegar, nos machucar, nos permitir porque somente abrindo nosso baú para as mais diversas melodias é que conseguimos, de fato, viver. O segredo não é fechar o baú, e sim, saber tirar aquilo que de nada está servindo; o que está somente fazendo peso; saber dar adeus às pessoas, seguir em frente diante de decepções e o mais importante: externar nossos sentimentos, colocar pra fora.

Como eu faço isso? Escrevendo. Muita gente me pergunta no que eu me inspiro para escrever. Depois de começar a ler o texto, a palavra denuncia um pouco. Me inspiro em tudo: na minha vida, na vida das pessoas, nos detalhes que observo, no que sinto, no que imagino; em tudo que entra no meu baú. As coisas boas que escrevo são para poder gravar melhor, deixar registrado com uma caneta de ouro e cheia de carinho. As coisas desagradáveis, tristes ou dolorosas se transformam em letras porque esta é a forma que eu encontrei de tirá-las de mim, esvaziar o baú para dar espaço às coisas boas. E nele só fica aquilo que me faz uma pessoa melhor.

Já passei uma fase sem conseguir escrever nada, sem inspiração alguma, e só fui entender - e resgatar - quando me dei conta de que pra expirar (meu escrever) é preciso primeiro inspirar. O processo de respiração precisa ser completo. Eu estava com tanta tralha em mim ao mesmo tempo que não havia espaço - ou coragem -  para coisas novas. Meu baú estava cheio, atordoado, prendendo a respiração.

Precisamos nos abrir sem medo. Sugar com todo prazer o que vem de fora, filtrar, para só então expulsar o que não faz bem. Pode ser que agora você não sinta a falta de "ar" por estar sem respirar, mas uma hora ou outra vai ter que abrir o baú e se permitir viver. Dessa forma, todos nós precisamos passar por uma descoberta bem íntima: descobrir como inspirar e também como expirar, seja pintando, dançando, escrevendo, cantando seja no silêncio do pensar. Não podemos guardar dentro de nós o que precisa sair, seja por um bom motivo que precisamos partilhar com quem amamos, seja por não fazer bem.  Só vivemos de maneira plena quando nos permitimos uma respiração limpa e deliciosa. Como dizia Vinicius de Moraes:

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

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