Conserta-se


Em um mundo em que o que quebrou não se quer mais conserto, me pergunto onde estou eu. Posso começar falando de coisas, sendo mínima e real. Posso começar falando de coisas porque na sociedade em que vivemos é quase o que somos. Posso começar falando de coisas porque é um argumento que ninguém pode dizer que não é verdade. Então vou começar falando do celular que quebrou, do salto que perdeu a taxa, da roupa que descosturou, da boneca que caiu o braço, do brinco que perdeu-se o brilhante, do tênis que descolou a sola. Deu problema a gente troca, compra outro, deixa de usar, joga fora.

A minha geração está crescendo (já meio que crescida) em uma era em que a palavra conserto mal existe. É como uma lenda. Quando eu era pequena e minha boneca quebrou, pedi minha mãe pra comprar outra e ela disse que na época dela existia um hospital de bonecas. Lembro que, mesmo quando eu era pequena, minha vó sempre ajeitava as roupas descosturadas; e meu celular quando quebrou passou 1 semana no conserto. Hoje em dia ninguém mais tem tempo para 1 semana de conserto. Hoje em dia ninguém quer nem saber de conserto quando se sabe que tem alguma coisa melhor esperando ser comprada.

Isso é resultado de um pensamento capitalista; não evolucionista, me desculpem. É muito legal saber que a cada dia o mundo evolui (neste sentido tecnológico); tem sempre um celular melhor, uma roupa mais bonita e uma joia mais cara, mas é tudo um resumo de uma sociedade em que a gasolina é o dinheiro. É a cultura do descartável. Tudo é substituível. Tudo tem troca, tudo passa. E, aos poucos, transferimos isso para as pessoas. Vivemos como se tudo fosse descartável. Tudo tem uma data de validade.

Tratar as outras pessoas como objetos, e ainda mais aqueles que não merecem conserto, está gerando várias consequências que se olharmos direitinho são fáceis de perceber. O número de divórcios teve um aumento escandaloso nas últimas décadas; é mais prático separar do que consertar os problemas, buscar uma solução. E a frase do meu amor Vinicius se torna banal neste contexto: "mas que seja infinito enquanto dure". É mais ou menos o equivalente àqueles números que procuramos quando vamos comprar um produto no supermercado: uma data de validade.

Eu não casei ainda, mas estou fortemente inserida nessa "cultura". Quando as amizades começam a ter diferenças demais, a gente deixa de ser amigo, quando surge as primeiras brigas nos relacionamentos amorosos a gente termina e quando o funcionário não está rendendo como gostaríamos a gente demite. Ninguém mais quer saber de sentar, conversar, procurar resolver, ajustar, ajudar. Mais fácil procurar no "mercado de pessoas", alguém que seja mais "perfeito" pra sua necessidade.

Com isso, é fortalecido o individualismo, a autossuficiência, o egoísmo e a solidão. Quando tratamos as pessoas como descartáveis, estamos nos colocando na mesma posição. E evitando os consertos que levam um tempo, acabamos nos automatizando a sempre buscar um status de mudança que não está sendo inteiramente positivo. Depois nos questionamos sobre estarmos sós, tristes e amargurados: é porque somos descartáveis, e o que é descartável uma hora vai para o lixo.

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