Escapismo


A vida me deixou sozinha. No meio do mar em um barco sem saber remar. Quando eu falo - sozinha - me ouço. O eco penetra nos meus ouvidos que nem um ruído incomodante. É triste ouvir a própria voz duas vezes. Duas vezes. E mais nenhuma (voz).

Já fui insuficiente várias vezes. Muita gente já me trocou por coisa melhor. Quando eu era da escola, uma menina deixou de passar os intervalos comigo para ficar com uma nova amizade; quando perguntei, ela escreveu, nas exatas palavras: "Não quero que você ache que não gosto mais de você! Na verdade eu gosto, e muito. É só que às vezes a gente não se da bem e certas pessoas aproveitam a oportunidade p/ dar uma de companheira e amiga. É só isso que eu queria falar." E deixou um coração pequeno logo abaixo.

Muita gente também já me trocou pelo celular. Até hoje reclamo com minhas amigas a falta de atenção em troca de olhar para aquela tela pequena. Tem vezes que nem reclamo; eu fico olhando pro céu e pensando na vida. Mas agora a vida me trocou. Eu me troquei. Já não sou mais suficiente pra mim. Essa vez é a pior, mas pelo menos eu não estou sem ter o que fazer na hora do intervalo.

Na verdade, eu queria um intervalo. Eu poderia pedir agora: vida, por favor, uma pausa. Mas ela me deixou só. E esse sentimento invade meu coração como um som que invade os ouvidos mesmo de quem não está curtindo a música. Igual a mim em festa que toca música que não gosto. Dessas que a mulher é um objeto e o homem um predador (falei isso só por falar mesmo).

E numa conversa de bar, eu perguntaria pra vida o que ela espera de mim ao me deixar sozinha. "Você acha que consigo viver só?", "Você acha que consigo reencontrar?".

Como dá pra perceber, a opinião da vida é muito importante pra mim. Assim como era a opinião daquela minha amiga que me mandou um bilhete em uma folhinha rosa. Hoje em dia ela fala comigo de vez em quando e eu evito sentir saudades. Eu lembro mais do bilhete do que de tudo. E dá certo.

Estou vivendo, na verdade, um escapismo. Por isso vim parar no meio do mar sem saber remar. Era para eu ter aprendido, e posso até investigar o porquê não aprendi, mas prefiro não. O que farei diante disso é usar a minha arte de pensar positivo e fingir que sei usar uma rema (o que é, de fato, outro escapismo). Remando por aí e sendo feliz. Escapismo dá certo pra quem quer amar. Ou fingir. Ou aproveitar o meio do mar até dar vontade de ir pra casa.

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