Discurso de uma escritora


Muita gente me pergunta se eu era boa aluna na escola, se minha matéria favorita era redação, se eu gostava de estudar. Estudar o que? Eu era a aluna menos estudiosa da turma. (risos) Lembro que era uma pressão muito séria, todos queriam que eu fosse grande, mas "ser grande" para aquelas pessoas era tirar notas boas. Não sei onde o mundo vai chegar assim. Imagina só se todo mundo pensasse do mesmo jeito deles, o mundo era feito de notas. Porque isso é ser grande. Eu lembro bem, era uma pressão muito, muito aguda. Gente que nem eu, que não tirava notas boas, era invisível. As únicas coisas que eles viam era o que fazíamos de ruim, na verdade. Eu tenho meu pensamento bem formado sobre a escola. Não sigam meu exemplo, eu não era boa aluna. Eu nunca desrespeitei professor, ao contrário de muito estudante aí. Isso vocês me copiem. Eu só não era boa aluna. Nunca servi para escola. Eu não gostava de nenhuma matéria, nem de acordar cedo, nem de cumprir horário nem de gastar meu tempo de leitura com os livros didáticos. A escola dizia que preparava a gente pra vida, aquele papo todo de futuro, mas quando eu sai da escola... Foi aí que senti que a vida começou pra mim. Antes disso eu meio que vivia num casulo, depois pude voar. Era uma liberdade massa. A liberdade é o que ensina, muito mais do que qualquer método educativo, a gente só aprende quando tem que escolher se faz ou o que faz. E depois da escola foi que surgiram os problemas e nenhuma conta de matemática dava pra resolver eles. (risos) E eu só sabia resolver problemas se fossem de matemática. Mas então... as pessoas acham interessante, ou melhor, relevante meu desempenho escolar. Mas aí eu vou contar uma história de uma menina caladinha e braba que estudava no ensino médio. Ela não falava muito na aula, mas não fazia as atividades de casa, então os professores não se interessavam muito por ela, sabe? Era tanta matéria que ela não sabia dizer se gostava de alguma. Um sufoco! Teve uma aula de redação que ela não queria escrever sobre mobilidade urbana, que foi o tema que a professora mandou. Aí todo mundo ia para o seu cantinho, baixava a cabeça e começava a escrever tudo o que sabia sobre o tema. As aulas de redação eram assim no ensino médio. No fundamental, ela teve uma professora que dizia que ela não escrevia bem e precisava melhorar. Por isso não ligava pra escrever ou não. Assim como não ligava em se sair bem em todas as outras matérias. Sim... nessa aula de redação da mobilidade urbana, estava todo mundo com os olhos na folha de papel (ou gazeando) e ela sentada no canto da sala encostada na parede. A professora era nova, ainda não conhecia seus alunos e ela se aproximou e perguntou porque a jovem não estava escrevendo. Com doçura, mesmo. Como era doce! E a menina foi sincera, disse que não queria. Conversaram mais e ela foi dizendo que o tema era chato, que não gostava de escrever sobre o tema que mandavam. Ela gostava de criar. A professora tirou o óculos e olhou para ela tão curiosa e perguntou: "ah, você é uma artista, é?". Ela não sabia o que responder, artista tem que fazer arte, e ela não fazia nada. E a professora disse assim: "não fique sem fazer nada. Use seu tempo 'livre'. Por que não escreve o que quiser? Qualquer coisa que vier na sua cabeça? Um conto... Um sentimento, alguma coisa que aconteceu com você." E assim ela fez. E gostou. E ficou, todas as aulas, escrevendo no caderno as bobagens da sua vida. Continuava não gostando das aulas de redação e como só escrevia o que queria, nem tirava nota boa. Depois de ter uma matéria toda do caderno com palavras bonitas, ela digitou todos os seus textos e criou um blog. Homenageou a professora, Márcia, no primeiro livro que escreveu e está tentando, agora, mostrar que o conceito de "ser grande" independe da sua nota da escola, do diploma que você tem ou do prestígio que recebe. "Ser grande" é se encontrar verdadeiramente na sua pequenez e assumir o que francamente se é. Modéstia a parte, mas eu sou grande. Amo o que faço e o que faço me cresce. Por isso sou grande. Porque eu cresço cada dia mais fazendo o que gosto. Me encontrei na escrita e vivo escorada nas letras. Vejo muito estudante desestimulado com as notas ou porque anda tão sufocado com a escola que sequer consegue escolher o curso certo (e ainda tem pai e mãe fazendo pressão) ou então porque não se encaixa nessa via "tradicional" de ser. Já passei dessa fase e hoje vejo que, foi importante para eu perceber tudo isso que estou falando, mas que ela é tão desimportante que passa rapidinho. Não tenha medo de abraçar a si mesmo! Não desperdice sua originalidade para ser que nem todo mundo. E mais... Seja grande na sua própria medida. Ser grande não é ser maior que ninguém, nem ter altos números seja no boletim, na conta bancária ou em uma empresa. Ser grande é ser você mesmo e crescer nessa condição de ser único. Quando estiver ao ar livre, olhe o céu. Procure o início do céu; depois, o fim. Você não vai achar. Porque o céu é piamente grande; é infinito. E nós podemos ser que nem o céu, pois dentro de cada um de nós há um infinito. O infinito não é igual a nenhum número, ele é grande demais pra isso.

3 comentários:

  1. Amei, Mille! Adoro seus textos! Sempre tive dificuldade na escola e desde que comecei a faculdade tenho me sentido mais realizada e feliz estudando o que gosto!

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  2. Obrigada! Estudar o que gosta é outra coisa, sinto o mesmo!

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  3. "Ser grande é ser você mesmo" *___*

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