Para quem tem um coração


Ainda é começo de mês e você já esgotou todo o crédito que tinha comigo. Tão rápido. Depois de levar tantos socos, o coração se esconde dentro do peito. Quem acredita que um coração aberto é o melhor para quem gosta de viver intensamente e aprender muita coisa com a vida está certo, mas uma hora ele quer se trancar pra sentir de forma mais profunda. Igual a nós, que quando chega a noite nos enrolarmos de baixo do cobertor pra acalorar os sentimentos. É bem natural, de fato. Vivemos abertos, mas precisamos, uma hora, fechar o coração para repensar todas as mágoas e marcas.

Abrir o coração é expô-lo; como uma ferida aberta, sensível ao toque e ao próprio sentir. Um coração aberto é, sem duvida alguma, a melhor escolha para quem ama. É viver em uma cura constante; a exposição machuca, mas nos permite uma vivência que não é fiel à realidade, mas à nós mesmos, aos nossos sentimentos e nossas paixões.

Por outro lado, fechar o coração é não permitir-se. É não usar o músculo para sua verdadeira finalidade: bombear-nos pelo mundo com toda a verdade que existe em nós. Deixar circular por todo o nosso corpo o sentir. Sem frescura; só sentir. Fechar o coração é um anestesiar-se da vida. De imediato, privar-se do viver. Um coração fechado não sente, não ama, não se deixa ser amado.

Quem sabe o quanto um coração é tão pequenininho, do tamanho de um punho fechado, não imagina a profundidade dele, seu tamanho, sua razão. Mas foi com um punho fechado, um pouco maior que o meu - ou seja, pouca coisa maior que o meu coração - que ele foi socado. E a ferida aberta que é ele faz doer ainda mais uma pancada boba dessas.

Quando a gente se depara com alguém que deixa o coração aberto, precisamos ter cuidado com essa pessoa. E diz-se cuidado no sentido do amor. Precisamos amar. Não amar como quem ama porque é parte das profundezas daquele coração; mas amar como se aquele fosse seu próprio coração: aberto, exposto e disposto. Não machucar, não sufocar, não tirar de si toda a moleza. Nem deixar que o guarde por tempo demais, saber quando guardar.

O meu, agora mesmo está guardando. Um coração guardado é essencial para quem anda de coração escancarado. É um parar - breve - para avaliar a abertura. O meu está guardado procurando ser mais intenso pra entender cada ferida sua. Enrolado de baixo das cobertas - que nem eu, esse coração sente um pouco do calor que gostaria de sentir enquanto estava aberto. E você não o acalorou. Tudo começa a ficar vermelho porque é como se eu estivesse prendendo a circulação. Não chega a todo o meu corpo aquele sentir que você não me deu. O sangue engrossa e fica mais difícil circular. Ninguém deve machucar o coração de ninguém. Muito menos de propósito, como você fez comigo.

Mas é importante mesmo ter um coração machucado. Um coração sadio não sabe a vida. Ele não sente, não cuida, não ama, não está aberto. E um coração fechado - diferente de um coração guardado - é impetuoso o suficiente (e estúpido o necessário) para também não se permitir sentir. Guardado, por sua vez, é aquele que gosta de estar aberto, por hora; ele sente tudo o que é pra ser sentido e escreve tudo o que é pra ser escrito (com sinceridade, o que é novidade pra mim).

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