Sentido, sentindo e ouvindo


Sei lá, uma música acabou de me entender. Andei tentando colocar pra fora esse sentimento de alguma forma: já pesquisei se tinha alguma palavra pra descrever; tentei descrever eu mesma; procurei encontrar, na minha memória, algum sentimento parecido que já posso ter sentido alguma vez na vida; mas nada. Era inédito. E eu me senti mais uma vez com aquela mesma textura no peito de estar fazendo alguma coisa nova, de estar começando a vida. Esses dias, inclusive, eu estive sintetizando a minha existência ao lembrar de que esses são meus últimos meses na casa do um. Dizem, que depois dos 20 a vida passa num instante e já ouvi também que gente da minha idade ainda não sabe o que é vida. Me resta concluir que eu ainda não comecei a viver. Talvez o dois seja sinônimo de vida. Os dois têm 4 letras, quem sabe isso já não é uma conexão. E a palavra "medo" também me invade, imitando uma "síndrome de Peter Pan". Não sei se quero que chegue esse tal dia do dois. Mas quando chegar, como será? O que o futuro me reserva pode ser assustador, mas o presente já anda me dando sustos o suficiente com essas novidades das quais não sei viver.

Achei uma palavra pra descrever alguma coisa, mas não o que a música soube explicar. A idade me ensinou um pouco a olhar mais para o que as músicas estão dizendo. Na mesma época, deixei de escutar besteira e passei a ter sede de cultura, de achar letras lindas e de participar. Pena que não participo porque me sinto velha demais por, muito nova, ter aprendido que música é aquilo que tem um sentido, não que machuca nossa própria imagem e faz remexer o corpo. Música remexe o corpo, mas obrigatoriamente ela faz dançar nossa alma. Não sei o que anda tocando nas baladas nem farras, mas sei alguns monólogos e poesias decorados e meus cantores e escritores favoritos morreram antes de eu nascer. E eles são os melhores. Quando eu penso que estou sentindo algo sozinha, eles me mostram que é um sentimento bem comum. Pra mim, dramática que sou, isso é ótimo. Eu saio imediatamente dessa onda de "por que comigo?" para um estado de espírito condicionado pelo prazer de não estar sozinha (nem acompanhada).

Quando as coisas começam a fazer sentido (falo da música, mas pode ser pra outras coisas também), algo dentro da gente muda. Sabe quado a gente acerta uma mímica e toda aquela movimentação louca que até então não dava pra entender começa a fazer sentido? Bem assim! Me senti até grande para a tempestade que eu estava fazendo em um minúsculo copo de água. Claro, que tudo o que estou sentindo não muda; mas dá uma incrementada. A música fica no repeat e graças a Deus não tem disco pra arranhar. Quando a gente se identifica, fica mais completo. Conheceu um cara, achou ele legal, se identificou? Muito boa a amizade que nasce. Dá aquela graça de discagem rápida no sábado a noite. Não é pra todos. Mesma coisa com livro. Gostou? Não volta nem para a prateleira, fica na cabeceira pra folhear uma vez ou outra. E com música e com séries e com tudo na vida. Acontece que todos nós somos um mundo. Cada mundo é lindo do jeito que é, e completo; mas quando a gente encontra um outro mundo que consegue dar uma cor a mais para o nosso, ficamos ainda mais completos.

E isso é, do pouco que sei, a vida: transbordar. Querer estar cada vez mais completo, e completar ainda mais. A única que ouço as pessoas gostarem que esteja raso é praia. O restante das coisas da vida tudo tem que ser cheio, muito, transbordante, exagerado, profundo, intenso. Não podemos viver a vida com calma, e sim, com alma. Aproveitar cada segundo com tudo o que de nós estiver afeito. Antônimo de calma, no caso, não é a pressa, e sim e ausência da ousadia de viver. Então sejamos sempre repletos de bravura pra ter a disponibilidade de colocar-nos por inteiro em cada segundo de nossas vidas.

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