Cheio de vazio


Não consigo mais decorar nomes, nem rostos nem risadas. Me parece que todo mundo se tornou um só. Mas infelizmente, não no sentido da união. É um "um só" diferente. As pessoas são as mesmas. Elas tiram fotos na mesma pose, usam as mesmas roupas e penteiam o cabelo igual. Gostam da mesma música e só leem os mesmos livros. Elas usam a maquiagem daquele mesmo jeito e até riem da mesma forma. A personalidade entrou em extinção. Quando a gente encontra alguém original parece que o mundo nasceu de novo. Ainda bem que ainda existem pessoas assim. O singular ainda não virou um mito. 

Tem horas que eu olho pela janela e vejo um vasto vazio em um lugar lotado de gente. É tanta gente cheia de tudo e vazia do que é realmente essencial. Em algum ponto, cada uma dessas pessoas escolheu esvaziar de si mesmo em troca de entrosar neste "um só" conflitante; nesta união dúbia. O medo de "ser" pode levar as pessoas à loucura. Essa estranha loucura de trocar-se por um nada.

O índice mostra que se a gente não for que nem todo mundo, a gente não é ninguém. Então, para ser parte do mundo, sentir-se aceito e abrigado, é necessário abrir mão desse "ser" porque é arriscado demais gostar de uma música diferente e ter uma risada estranha. Estamos vivendo uma versão ampliada daqueles grupinhos da escola. A diferença é que os invisíveis são aqueles que ainda insistem fazer do mundo alguma coisa. Porque no manual da igualdade não tem uma página para o pensar, pois se as pessoas refletissem, concluiriam a amplitude de quem escolhe ser cheio de si, não do mundo.

O ego foi trocado por um eco. O vazio nos preenche. Nos tornamos repetições exaustivas que refletem a vaga que deixamos pra trás quando escolhemos que é melhor não "ser", apenas repetir. E vamos vivendo nas sombras de uma ilusão, jurando que assim somos felizes. Nenhuma felicidade é igual a outra. Por isso que muita gente acha que a felicidade é uma competição e que é preciso mostrar para todo mundo as gotas dos seus sorrisos. Mas não é. Assim como cada um é especial, a nossa felicidade também é única. E para buscá-la, não precisamos ler livros de autoajuda ou revistas que prometem ensinar a viver. Só precisamos "ser". Sem medo, sem censura ou lacunas. Só ser.

3 comentários:

  1. Wanessa Antunes30 dezembro, 2015

    verdade!

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  2. "... Só precisamos 'ser'. Sem medo, sem censura ou lacunas. Só ser."

    E é assim que você resume meus últimos meses.
    Rsrsrs

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    Respostas
    1. Pois é, tenho procurado isso também! Não há nada mais importante na vida do que assumir-se e ser quem realmente se é! Beijão!

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