Não seja bom no Natal


Há dois anos atrás, na véspera de Natal, eu fui para o supermercado por volta das 17h comprar torradas e patê para levar para a casa da minha vó, onde minha família se reúne todo final de ano (e todos os sábados também). Tinha muita gente fazendo as últimas compras, a fila estava grande e eu fui com pressa para a fila rápida com dois patês, um saco de torradas e 4 refrigerantes. Sozinha. O homem que estava na minha frente na fila me chamou e me mostrou seu carrinho. Ele tinha juntado todas as suas coisas no canto do carro e deixado um espacinho para eu pudesse colocar minhas coisas ali e descansar as mãos (inclusive, contei isso na época).

Eu fiquei sem reação. Era um estranho fazendo uma coisa tão pequena por mim, mas que transparecia seu coração tão grande. Fiquei encantada. Coloquei na minha lista de coisas a fazer (na época estava na moda a lista de 101 coisas em 1001 dias) e prometi para mim mesma que iria fazer algo bom para pessoas desconhecidas sempre que pudesse.

Dois anos se passaram e eu ainda não tive coragem de riscar esse item da minha lista. Sempre que eu faço alguma coisa, eu penso: mas nem se compara ao que aquele homem fez por mim. Percebi, no fim das contas, que quando a gente faz um bem para o outro, não é somente para o outro que estamos fazendo esse bem. É também para nós mesmos. O rapaz nem sabe o quanto me marcou com aquele gesto, mas aquilo fez seu coração dilatar. E o meu também.

Antes, eu não gostava do Natal. Sempre arrumei desculpas para não gostar. Primeiro, eu tinha raiva porque o Papai Noel não....... Até que percebi que ele existe sim, afinal, os tantos presentes que ganhei na minha infância não brotaram da árvore. Depois, meu avô morreu. Era dia 24 de dezembro e isso, pra mim, era motivo de desânimo para Natal. Não tinha mais sentido se a data me deixava saudades. Superei isso também. Meu avô merece ser lembrado com um sorriso e merece fazer parte do nosso clima amor no Natal.

Por último, eu não gostava do Natal porque eu achava que as pessoas eram hipócritas. Faziam o bem naquela época vermelha do ano, enquanto todos os outros dias caíam nas próprias futilidades. Isso é verdade sim. Isso acontece. Uma atitude de bem neste contexto não é uma boa ação nem para o outro nem para si. É uma maquiagem. Não marca, como marcou o que aquele homem fez por mim na fila.

A bondade está em todo lugar. Mas a verdade, por outro lado, é difícil de ser encontrada. Quem é bom, é bom no Natal, quem é verdadeiro é assim todos os dias do ano. É assim no trânsito, no roll do prédio, na faculdade, na academia, no bar, em todos os lugares. Quem é bom faz um bem em uma determinada situação. Quem é verdadeiro faz um bem para o outro e para si mesmo, e não precisa de uma lista como eu para riscar quado for gentil com alguém. Fazer o bem é um item que não tem como riscar. Quanto mais você faz, mais você tem que fazer. Esse é o espírito de Natal, o nascimento de algo que vai permanecer dentro de você a sua vida inteira: o amor.

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