O meu lado errado


Em algum momento eu percebi que eu já fui mais, já quis mais, já amei mais, já sorri mais, já sonhei mais. A certo ponto, virei refém da realidade e parei de lidar com a doçura das nuvens que existe dentro de nós. Virei pelo avesso, e, ao contrário do que dizem, não descobri que o avesso era o lado certo. Descobri que não existe lado certo, só existe lados e versões de nós que vivem de formas distintas. Mas esse lado de me fez faz sentir saudades de quem eu costumava ser.

No começo eu achava que era passageiro. Que a solidão fazia parte e que a sensibilidade só era a sinceridade intensificada. Antes, eu tinha uma justificativa e rezava por um fim. Cada dia era um fim. Até que me dei conta de que cada dia era o meu fim. A cada dia, eu me tornava mais mecânica; fazendo repetições sem sentido, não sentindo e enquanto isso, aguardava minha programação mudar e eu voltar a viver. 

Por esses dias, eu procurava pensar positivo. Eu chorava, começava a perceber que alguma coisa faltava dentro de mim, mas nunca desconfiei que isso pudesse ser eu mesmo. Eu fazia essas listas terapêuticas de pontos positivos e pontos negativos, e tentava suprir tudo de ruim fugindo da minha realidade. Eu não pensava mais nela, não queria nem mais ir embora, não sonhava mais, tão pouco vivia. 

Foquei no positivo, aproveitei todas as vantagens que me foram oferecidas no novo lado. Eu "não ligava" para todas as coisas que diziam porque, por mais que falassem de mim, eu ainda queria ser aquele antigo lado de mim. 

Os dias ficaram mais desgastantes, os sorrisos mais escassos e eu já não sabia mais o que era amor. Quando reclamavam, eu sentia que se esse novo eu, que nem o antigo, soubesse, ele não seria assim. Ainda restava uma esperança. De acordar. Voltar. Mudar de lado. Ser eu. Aquele eu.

Quando me dei conta, me senti em um beco sem saída. Um labirinto talvez. O interessante é que na música que me mandaram ouvir ontem diz assim: "a vida é um labirinto". E o que guia é o amor. Eu estou parada,  ou estou caminhando para o lado errado, estou no escuro. Não há luz, não sou luz, não tenho luz. Não vejo as coisas claramente, não ando pensando claro nem sentindo. 

Eu penso que vai melhorar. Desejo, inclusive. Eu caio e me levanto, mas assim que me ergo, me dou conta de que a vida me quer no chão. Agora me sentei, peguei o notebook e escrevi. Faço isso sempre que caio, na verdade. Mas dessa vez vou ficar aqui mais um pouco. Com o coração tão apertado que nem um limão cabe mais. 

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