Florescer é ser uma flor


Dois mil e doze: alô? Terra chamando Camille, responda Camille!!! Terra chamando Camille, responda Camille!

Chegando na terra. Cambio.

Dois mil e treze:  pouso realizado de maneira brusca em contato com o solo. Cambio.

Foi uma chuva muito forte. Alagou, inundou. Foi uma daquelas enchentes que saem no jornal. Catástrofe! A desgraça da minha vida. Fui parar de baixo da terra e ainda encharcada pela chuva; a vida é escura. Triste, úmida. A gente quer saber se existe vida após a terra. Alguém pode dizer? Uma semente de baixo da terra faz alguma coisa no futuro, consegue ser alguém e tal? Ninguém nem consegue ver a semente, como ela vai ser alguém? Depois, me aparece uma luz ente a escuridão. Uma luz que me ilumina e nutre. É o sol. Grande sol. Dá pra ver que a vida é além da terra molhada pela chuva. E a água que me sufocou até que fez bem. Depois da chuva, é que vem o arco-íris, não dizem assim, né? Cambio.

Dois mil e quatorze: mas não vi arco-íris algum. Cambio.

Vi umas raízes se agarrando ao que é verdadeiro e profundo. Senti que o sol me chamava, mesmo distante. Sai da escuridão e descobri que o que me cobria mais do que a terra eram meus medos. Comprei coragem e escolhi a determinação como brinde. Fui deixando cair um pouco de mim pela terra, mas foi crescendo coisa melhor no meu coração. O vento levou pra longe essas coisas que ocupavam um espaço que me parecia importante, mas que ao ir embora deu lugar para o melhor. Acho que é isso que importa. O sol me deixava otimista e eu desejava ser alguma coisa diferente do que eu já era, uma motivação tão boa que não sei explicar. Mas já me sinto nova. Há algo diferente em mim e quem me contou isso foi a felicidade. As coisas começaram a dar certo pra mim. Cambio.

Dois mil e quinze: choveu mais? Cambio.

Muito, mas não tanto quanto antes. Ficou escuro, como se fosse noite por alguns dias e o que era bom demorou muito pra chegar. Mas tentei olhar ao redor durante o sereno e observar o que eu já havia construído em mim. Eu me sentia tão farta, que apesar da fome, eu podia passar mais algum tempo esperando o sol aparecer para me alimentar. Fiquei murchinha, mas não entreguei a felicidade, embora ela tenha se escondido de mim. Me agarrei ao novo eu e resolvi ainda acrescentar algumas novidades. O sol não estava chegando, mas decidi eu mesma fazê-lo voltar. E ele voltou. Percebi que nem sempre temos culpa quando estamos passando por um momento difícil. Mas é nossa culpa continuar na escuridão. Se não dá pra enxergar uma luz no fim do túnel, seja sua própria luz. E assim, tive que me redescobrir. Já estava descoberta pela terra, só faltava eu me olhar fundo nos olhos para perceber. Cambio.

Dois mil e dezesseis: não é à toa que estamos no planeta terra, a vida é uma plantação vasta em que constantemente colhemos aquilo que plantamos. A paciência é uma virtude de todo bom jardineiro e os bons frutos são aqueles que, quanto mais demoram para dar resultado, melhor é a colheita. Do futuro, nada poderei dizer, mas uma coisa é profecia: a gente colhe o que a gente planta. E os resultados não são imediatos. No início, tudo parece escuro, mas a semente começa a se desenvolver de baixo da terra abundada pela chuva. Em direção certeira ao sol, ela cresce. Cambio.

Descobri que sou uma flor. E essa é a minha prima-vera. Hora de ser, renascer e florescer.

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