Forelsket: A euforia de se apaixonar

Forelsket é uma palavra em dinamarquês que não tem tradução para a nossa língua e significa a sensação de euforia quando se está prestes a se apaixonar.

Aos quinze anos, tudo é infinito. Não fui eu quem inventou isso. Foi Machado de Assis, um escritor clássico que mandaram ler na escola. Mas eu concordo com ele mesmo que isso tenha sido pensado há muito tempo; eu não era nem viva. Os tempos mudaram, mas os quinze anos são os mesmos quinze de sempre. Recebi mil cartas ano passado quando fiz minha grande festa, todas elas diziam que eu era uma menina-moça e que eu deixei de ser menina e agora sou mulher. Ninguém escreveu que aos 15 tudo é infinito.

Todos os convidados combinaram de escrever algo que não entendo: como é que em um segundo eu sou menina e depois da valsa, mulher? Não. Isso não está certo. Não é a idade que me faz ser mulher, não é. Passou minha festa de quinze anos e amanheci com a maquiagem borrada e com bonecas no quarto. Ainda menina. Um ano se passou, e agora sim me sinto mulher. Com quase 16, e agora que deveriam me dizer que eu sou uma menina-moça e que estou deixando a menina que existe em mim de lado. E que ter quinze anos é viver um ano infinito.

O rito de passagem é o amor. É o amor que transforma uma menina em uma mulher. A euforia de se apaixonar, de prometer involuntariamente suas noites pra pensar em alguém, de doar a ultima folha do caderno para escrever um só nome e milhares de corações. Ninguém me mandou carta pra dizer isso, ninguém me avisou. Eu estava tão distraída. Eu não sabia que podia sentir algo tão bom assim. Cair em amor. É algo mágico. Bom. Suado. Suave.

Tudo aconteceu de repente. Estávamos conversando, como sempre fazemos e uma hora olhei pra ele com o coração agitado. Minha mão estava gelada e eu precisava lembrar de que pra viver eu tinha que respirar. O que era aquilo? Eu sabia que não estava apaixonada. Aliais, eu nem sabia o que era estar apaixonada. Aquilo era uma coisa diferente que dava pra ser vivida em detalhes. Era um cambalear dos sonhos, era um pedaço da boa realidade do amar.

Era um rito de passagem. Ali eu era mais mulher, menos quatorze anos. Sentia todo meu corpo se desenvolver super rápido para abrigar um sentimento novo, era uma preparação cheia de calor e boa energia. Era uma pré-paixão. Fiquei em silêncio enquanto ele falava. Eu não ouvia nada; estava procurando entender o que estava acontecendo. Era um forelsket. Mais tarde me dei conta que eu estava vivendo algo intraduzível. Eu estava sentindo a euforia de quem se apaixona. Sei disso porque a próxima vez que olhei em seus olhos, não pude evitar: já estava louquinha de amor por ele. E como eu ainda tenho 15 anos, tenho certeza: esse amor é infinito.

Existem palavras que só existem em um idioma, como por exemplo "saudade" e "cafuné", que só encontram-se no português e não têm tradução para as outras línguas. Tradução é uma coluna escrita por Camille Reis que traduz de uma forma singela e doce as palavras que não existem no nosso vocabulário. Mais>>

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