Insônia da felicidade


Já era para eu estar dormindo. É tarde, o despertador já está ativado e eu não sei se já chamo o amanhã de hoje. Eu moro em uma rua movimentada e da pra ouvir alguns carros passando e a luz das estrelas que brilham no escuro do teto do meu quarto já está fraca.

No meu peito, reúnem-se a dor de saudade e a dor da incerteza. Se me perguntarem no que eu tenho dúvida, é exatamente isso que não sei, mas já mencionei o coração encolhido nos meus pensamentos diversas vezes desde que deitei.

Já rezei, já refleti meus erros diários e já troquei de posição milhares de vezes. Fiz umas contas de dinheiro aqui deitada e anotei no celular duas coisas para eu lembrar de fazer amanhã. Já me lamentei, já me perguntei se sou uma decepção para meus pais. Não tenho coragem de perguntar a eles, mas de toda forma, acho que não diriam a verdade crua. E também me perguntei se sou uma decepção pra mim.

Mas meu existir é circulado por esse sentimento de incapacidade. Listas de ano novo, metas escolares, melhoras na personalidade e objetivos profissionais. Nunca fui 100% em nada disso.  Um amigo meu esse mês disse que eu deveria ser mais realista. Sou tão pura - lamento. Os sonhos ainda são a maior parte da minha rotina. É como se minha cabeça fosse um céu: cheia de nuvens.

Acredito que minha maior meta para o ano deverá ser: ser mais realista. E a partir dessa meta, criar algo mais fiel a mim. Às vezes eu quero esquecer das minhas próprias limitações para ser maior, para ser mais. Até ontem achava que tinha algo de errado comigo porque eu sinto saudade dos meus amigos do colégio, de quando eu estudava aquelas coisas que nunca precisei. Li um texto dizendo que isso era da idade. Então eu descobri que também é normal ter medo de crescer. E poxa, como tenho. Sempre tive. A vida é um fio. Escorre e desliza tão facilmente!

Hoje não tenho só o medo, eu tenho pavor. Porque eu vejo que amanhã já é o dia que eu tanto temi e talvez esse dia também seja o ontem. To aqui respirando fundo para não chorar contando isso. A crise da meia idade agora é na faixa dos vinte e daqui a alguns meses eu já entro nesse mundo paralelo chamado vinte-e-poucos-anos.

 A vida meio que passou pra mim, sabe? E eu nem a percebi muito bem. Tem coisas que eu queria ter feito desde os meus 14 anos e não fiz e meus amigos não são os mesmos. E são bem menos. Mas eles são ótimos.

Não sei se sou uma decepção ou se sou uma pessoa no fim de uma etapa incalculável. Aqui deitada também já pensei em todas as minhas conquistas e já viajei pelos meus momentos difíceis. Eu achava que viagem não dava pra recusar, mas essa bem que eu quis negar.

A dor da incerteza é marrom. Uma mistura de todas as massas de modelar da caixa. Não da pra separar as cores nem os pingos de lágrimas que ainda podem cair se minha garganta apertar mais um pouco.

Sei nem o que é. Sei nem o que sou. Pelo menos estou tentando.

Estou fazendo terapia para me redescobrir. Descobrir-me de novo. No momento estou fechada por causa de todas as feridas do meu coração.

Estou fazendo terapia para me reinventar. Me inventar de novo. No momento sou aquela velha invenção que foi ultrapassada pelas novidades da vida.

Estou fazendo terapia para me redecorar. Decorar de novo. No momento estou com móveis velhos e quebrados que não servem mais.

Estou fazendo terapia para dar ré. Preciso voltar em busca de algumas essências e perfumes que eram só meus. Pra crescer na vida, muitas vezes precisamos diminuir. É o que eu estou fazendo. Muitas vezes falamos mais através do nosso silêncio e aprendemos mais quando vamos ensinar. A vida é um epílogo que se contradiz com a obra e que nos deixa ardendo de vontade de ler. Em uma dessas contradições, eu me reverencio para qualquer pessoa que esteja disposta a partilhar um pouco do último dezembro.

Esse ano eu aprendi a saborear a vida mesmo quando ela não é exatamente como a gente gostaria que fosse. Eu aprendi a saborear a vida dos adultos, onde a realidade precisa empolgar mais que os sonhos e o abismo é o cume em que mora a felicidade.

Agora eu sei o que é ser feliz, embora aprecie uma felicidade diferente daquelas dos meus sonhos. A felicidade é um segredo, a felicidade é o segredo e ao mesmo tempo a felicidade não tem segredos. Ela vem quando a gente simplesmente decide ser feliz.

Feliz 2016!

5 comentários:

  1. Tudo verdade Mille! Amo o que escreve. bjos!!!

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  2. Parabéns, lindinha! Vejo que você ainda é bem jovem... Mas, está no caminho certo. A vida é isto mesmo, um constante se inventar e reinventar... Daqui a mais alguns "muitos" anos, vai descobrir, como eu descobri, que apesar de todas as perguntas, muitas vezes sem respostas... A vida continua sendo maravilhosamente bela no seu constante ir e vir. Siga sempre em frente, você tem talento!Passa lá no meu blog qualquer hora destas. Beijos. jane-reis.zip.net

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    1. Ah, minha flor, muito obrigada pelo carinho!! Um beijão!

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  3. Seu texto chega a ser perfeito, Camille!

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    1. Nossa, obrigada mesmo! Fico feliz por ter gostado!

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