O voo da vida


Já conheci muitas pessoas. Aprendi que ninguém entra na nossa vida para ficar pra sempre, mesmo que a gente queira que seja assim. Todo mundo que cruza o nosso caminho tem uma finalidade na nossa vida, deixa um pouco de si e leva um pouco de nós, mas nunca passa sem deixar rastros. Muitas vezes não percebemos de cara o que a pessoa veio trazer, algumas nos dão muitos presentes, outras são tão discretas que mal notamos o que foi deixado para nós. Mas cada pessoa do mundo, eu, você e quem você está pensando agora é, na verdade, uma mistura de corações que se encontraram no meio do caminho.

Como disse Vinicius, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." Viver é ir e vir. Voltar, sumir de novo, matar a saudade e sair ileso. Nunca ficar. Não formos feitos para ficar em um lugar só, não somos árvores, somos pássaros; nossas raízes são ambulantes. Somos nômades de espírito e vida, e isso é somente mais um lembrete de que estamos vivos e ainda assim tentando sobreviver.

Somos pássaros. Faz parte de nossa natureza voar, ser livre, passear pelas possibilidades da vida e depois procurar um lugar para descansar. Enxergando a vida como o céu dos pássaros, eu divido todas as pessoas em duas categorias: algumas pessoas são gaiola e outras são ninho.

As gaiolas são aquelas pessoas que quando entramos na vida delas, elas nos prendem. Elas nos dão abrigo, mas não ficamos porque queremos, e sim por não conseguir sair. Elas nos deixam confortáveis na gaiola, dão comida, água e carinho, às vezes até esquecemos, mas estamos presos. Ficamos porque não temos por onde sair, temos medo de voar ou desesperança de encontrar uma brecha dentre as grades. Com pessoas gaiolas eu posso até ter vivido um relacionamento bom, mas na primeira oportunidade e coragem eu fugi. Aquele amor que esfriou, a amizade ciumenta que tem brigas por bobagem, a companhia do cinema só por não ter o que fazer. Já estive em muitas gaiolas.

Enquanto isso, as pessoas ninho são aquelas que não nos prendem, mas resolvemos ficar. Com a liberdade, nós voamos pra sobreviver, mas sempre voltamos em busca daquele carinho. As pessoas ninho são nossas casas. Moramos dentro delas e elas moram em nós e escolhemos ficar em casa no sábado a noite porque faz bem, não por não ter como sair. São os relacionamentos saudáveis, as amizades abertas e o cinema marcado antecipadamente só pra não ter outros compromissos naquele dia. Eu amo ninhos. E eu quero ser o tipo de pessoa que é como um ninho. Não mantenho ninguém na minha vida por "obrigação". Dou asas para irem e voltarem, ficarem e partirem.

Seja ninho ou gaiola, as pessoas vão fazer parte das nossas vidas, trocar-se em miúdos conosco e depois ir embora. Ninguém é pra sempre. A dinâmica de quem tem asas é viajar de coração em coração deixando um pouco de si em cada um, independente de ser uma gaiola ou um ninho. A saudade não é dor por não estar ao lado de quem se ama, ela é a lembrança de quando se estava cercado por aquele amor. E é natural, bonita, gostosa - em partes.

Só precisamos respirar fundo e ser ninhos. Precisamos ser esses que dão a liberdade do voo, precisamos ser esses que voam também. Precisamos ser pássaros e ninhos, pássaros em ninhos. Em cada encontro, deixar o melhor de si e da sua liberdade e a cada desencontro guardar as lembranças desaguadas no peito. Que sejamos esses que deixam um pouco do bom de si nas gaiolas e ninhos; que sejamos ninhos. Que sejamos esses que despertem nos pássaros a vontade de ficar mais. E deixar mais um pouco de si.

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