Ainda não terminei de viver


Era um rapaz, e ontem mesmo estava vivo. Era casado com uma mulher que gostava de ver o Faustão dia de domingo e tinha duas filhas pequenas. Trabalhava no posto de saúde e estava no meio do curso de direito. Ia para a igreja toda semana e ensinava aos jovens da primeira eucaristia. Ele assistia The Flash e Arrow pra comentar com os caras do trabalho, ria no cinema toda segunda-feira com a esposa, estava juntando dinheiro para um celular melhor, tinha três contas prestes a vencer em cima da mesa e morreu. Assim, do nada. No meio da tarde, no meio dos planos, no meio da semana, no meio do mês no meio de tudo.

Mas quem vai pagar as contas e lanchar com a mulher dele depois do cinema? Quem vai dar aula para as crianças da igreja e fazer prova no fim do bimestre? Meu Deus, como é que a gente se prepara para a morte? Por que não tem um aviso para a gente poder se desculpar com quem estamos fazendo birra, para darmos aquele abraço, tirar uma pedra do peito? Por que no meio da faculdade? Por que não depois do fim da série? E como saberemos o que vira o Oliver Queen no final de tudo?

Afinal, quando vamos estar prontos?

Me perguntei isso o dia inteiro. A gente tem tantos sonhos, tantos planos e expectativas. Tem o amanha e aquilo que faremos semana que vem, e o que é isso de morte que pára isso tudo? Por que não temos um aviso prévio, uma intimação, um ultimo dia pra resolver tudo o que temos?

Por coincidência me perguntaram se se eu morresse hoje eu iria para o céu. Mas eu não quero morrer hoje. Briguei com minha irmã de manhã cedo, tenho um trabalho para entregar na faculdade, um filme pra assistir no cinema e minhas 30 séries pra saber o desfecho. Não da para eu ir agora, então não vou ligar para o mérito da questão. A vida é passageira e o que nos espera depois é muito melhor do que tudo isso, mas eu ainda preciso viajar para Paris e publicar um livro.

Diante de tanta coisa pra terminar, foi decidido assim: a morte chega sem avisar. Ela é uma surpresa, assim como cada dia de nossas vidas. O que resta a nós é viver cada dia como se fosse o último, mas também como se fosse o penúltimo. Temos que ser totalmente feliz no hoje, mas sem esquecer de deixar um pouco de felicidade para amanha. Neste dilema está o maior desafio de nossas vidas: aprender a multiplicar a felicidade. Ser sempre sempre feliz, viver feliz pra morrer feliz, mesmo sem ter o séries finale da sua série favorita.

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