Quintal de infância


Algumas plantinhas me permitem respirar um ar de infância. Acho que é porque quando eu era pequena morava em casa e o quintal era enorme bem cuidado. Quando eu chegava da escola, a tarde, e depois de fazer as tarefas, ia brincar. Eu era conhecedora daquele jardim e às vezes fada, ou uma aventureira perdida na floresta, uma cozinheira que arrancava alguns galhos para fazer o almoço, eu era parte daquela natureza e era feliz.

Hoje, só vejo a orquídea (que se chama Janiscleide) perto da janela do meu quarto. Tem os jarros na recepção do prédio também, mas eu não mais vivo um jardim, ou nem mesmo em um jardim.

A vida se tornou assim: cinza e de passos rápidos e curtos. Não tenho mais tempo de chegar no quintal pra sorrir. Só tenho um prédio com uma varanda que não cabe uma rede e uma pressa que não me deixa aproveitar essas coisas boas como parar, olhar ao redor e respirar um ar puro, fundo e colorido.

Trocamos a vida pela existência. Estamos em modo piloto automático, passando os dias sem lembrar ao certo os pequenos prazeres como sentir um jardim e olhar o pôr do sol sem olhar o relógio. Os passos rápidos são um resumo do nosso dia-a-dia e as dores de cabeça uma saudade de quando éramos crianças e podíamos ser quem quiséssemos em um quintal.

Hoje, não temos mais essas possibilidades de "ser". Somos o que devemos ser e ponto. Perdemos a nossa infância não porque crescemos, mas porque esquecemos como é simples ser feliz.

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