Ponto final


Todo fim é súbito. Os corajosos normalmente se despem para a vida, mas em uma despedida até os covardes ficam nus. Com uma mão atrás e a outra na frente, se passar um vento, vai com ele tudo o que esqueceram de tirar - e desapegar. Afinal, a vida é como um córrego que segue um fluxo inconstante e imprevisível. E nós, nadamos com ou contra a correnteza, ficando a nossa escolha aonde queremos chegar. Ou se nunca queremos chegar, e sim, viver como eternos viajantes.

Mas, independente das nossas escolhas, o fim é um evento que vivemos todos os dias, seja no fim do expediente, o fim da tarde, o fim do dia, seja o fim de um amor ou de uma fase. Finda, também, um pouco de nós em cada ponto final que tocamos nessa caderneta da vida, afinal de contas, a gente se exclui um tanto todos os dias. E, embora seja escuro e sombrio, o fim nos presenteia com a expectativa para viver o momento mais singelo da nossa jornada: um começo.

Nessa trajetória de fins e começos, precisamos ter em mente que a beleza de viver ciclos e mais ciclos durante os nossos dias está em tudo aquilo que guardamos de aprendizado nas entrelinhas dos dias. Jamais podemos mergulhar em um início com o peso de tudo aquilo que já vivemos um dia, mas pelo contrário, esvaziar a bagagem e metabolizá-la em aprendizados, que, como cicatrizes, não doem mais, mas nos lembram de tudo aquilo que já iniciamos e já terminamos e o porquê ainda queremos viver mais inícios e fins.

A experiência de viver é cercada de novos dias e novas oportunidades. Para viver tudo o que a vida nos propõe é preciso tirar a roupa (e as mágoas) para participar da pureza mais extrema da vida: ela mesma. E nesse rio que não para, iremos continuar vivendo todos os dias novos inícios e novos fins. E se ele é súbito, o início, é revigorante.

(E, assim como o texto, vivemos fins nos inícios e inícios nos fins porque nada é tão delineado nessa loucura de viver)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários sujeitos a moderação.
Será excluído qualquer comentário que declare preconceito ou que seja ofensivo e pejorativo.

CF/88: Art. 5°, IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

Camille Reis. Todos os direitos reservados.©
Design e codificação por Sofisticado Design