Minha história de amor nos dias de hoje


Eu conheci Fabrício em um momento de dor. Ele tinha acabado de perder a mãe depois de 8 meses de sofrimento. Câncer de fígado. Foi uma longa batalha. Ele estava desgastado. O irmão mais novo, de 8 anos, era uma criança triste e o pai, sobrecarregado.

Ela se foi e deixou dor. Infelizmente, não tinha outra palavra para a partida dela. Era como se tudo na vida deles fosse preto e branco a partir do dia que ela descobriu o câncer. E com sua morte, tudo virou cinzas.

Por muito tempo, eu fui um colo para Fabrício; um consolo. Eu me sentia bem em poder ajudar, mas era um aperto muito grande no coração quando ele ligava chorando no meio da noite porque se sentia só. Eu pegava o carro na madrugada e ia dormir com ele.

Eu evitava brigar com ele porque sabia que tudo o que ele fazia era uma tentativa dura de esquecer que o seu coração sangrava. Eu fiz o meu melhor. Como namorada, como pessoa, até mesmo fui uma mãe, mas não pude evitar que ele entrasse em uma depressão. Eu não me culpei, mas me senti insuficiente.

No momento que ele disse "estou em depressão, o psiquiatra quem falou", eu senti meu coração se afastar do corpo. Não sei se já conhecem essa sensação, aquele segundo que tudo muda, e você se pergunta mil coisas. E deseja que fosse você, pra poupar a dor do outro. Ainda não era real pra mim, mas era muito real pra Fabricio. E doloroso.

Eu o abracei, mas não saiam lagrimas. Nem de mim, nem dele. Alguns sintomas estavam bem na minha cara e eu não parei pra perceber. E me perguntei se as coisas seriam diferentes se eu tivesse agido diferente. Mas eu bem sabia que não adiantava me culpar. Eu precisava ajudá-lo.

Depois do abraço, consegui dizer "vamos superar isso juntos", e me mudei pra casa dele. Aquilo foi uma promessa de amor muito mais sincera das que as pessoas fazem no altar. Eu também comecei a ir pra terapia pra não me culpar e aprender a lidar com o sofrimento e a melancolia dele. E foi difícil. Foi um processo longo e pareceu ser mais longo ainda.

Um dia, Fabrício recebeu alta. Dois dias depois, ele me pediu em casamento - fizemos a cerimônia mesmo, porque casados já estávamos vez que morávamos juntos. A celebração foi bem simples. Depois de sete meses tivemos nossa primeira filha, e dois anos e meio depois, a segunda. Nossa vida é só alegria.

Quando penso no passado e por todos os desafios que enfrentamos eu sinto orgulho. Muito. Diante de um mundo em que tudo é descartável e as pessoas desistem de suas vidas, seus relacionamentos e sonhos no primeiro obstáculo, eu e Fabrício enfrentamos tudo juntos.

Vejo amigos se separando por problemas financeiros, dificuldade de horários, conflitos de opinião ou até mesmo ciúmes. Claro que ninguém deve ser infeliz em um relacionamento, mas o "desistir" hoje em dia se tornou banal. O casamento se tornou banal.

A gente acha que as consequências do fim de um casamento é somente dividir bens e o climão na família, mas eles são muito mais extensos. Diretamente, os filhos são os mais prejudicados. E de forma indireta não se pode medir a extensão de tantos divórcios na vida pessoal, na sociedade e nos valores do mundo.

Mas eu não tô falando só da nossa fraqueza em enfrentar situações no casamento. Não. A gente vive isso em tudo. São chefes que demitem seus empregados por falta de paciência em estimar uma melhora, amizades que se desfazem por coisas bobas, namoros que não seguem por brigas e desentendimentos, pais que desistem de seus filhos por achar que não mais tem solução, celular com defeito que não vale a pena colocar no conserto e até os brinquedos que quebram e compram-se outros.

Se a gente olhar pra nossa vida, somos todos assim. Temos que ser muito práticos. O mundo hoje em dia exige essa velocidade pra gente amar, ser feliz, viver, consertar, conversar. Mas precisamos medir as consequências disso, que, da mesma forma que existe no caso de divórcio, existe em qualquer situação que vivemos em nossas vidas e uma hora a consequência chega em nós; do mesmo jeito que tudo e todos são descartáveis, uma hora seremos também.

Enfrente seus problemas e dificuldades. Insista nos relacionamentos e pessoas. Valorize seu dinheiro e o que você tem. Cuide-se e você será cuidado.

Um comentário:

  1. Camille, passei por algo parecido, mas já era casada. Realmente enfrentar dificuldades hoje em dia faz as pessoas desistirem. O irmão gemeo do meu marido morreu dois anos e ele ficou muito triste e quase caiu em depressão, mais Deus é mais e está tudo bem. Mas foi muito dificil!

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