Continuei sem nada


O cartão tá cheio. Meu guarda-roupa também. Comprei o que eu precisava e o que queria. Aproveitei a black friday. Agora estou aqui, olhando ao meu redor o notebook novo, as roupas de marca, a TV que ainda nem coloquei na parede e maquiagem boa. To cheia de coisas novas, mas por dentro, ainda vazia. Isso é muito além de uma ressaca financeira, é uma ressaca moral.

Comprar sempre foi uma terapia pra mim. Pagar, o que me faz levantar da cama às 6:05 da manhã.

Mas hoje, esse sábado que tá um solzão lá fora, eu to aqui dentro de casa, com a janela e porta fechadas e me sinto vazia. De coisas, não. Daquilo que é abstrato, intocável, intangível. Daquilo que não tinha pra vender nas vitrines, nem escondido na loja, por trás das roupas que ninguém se interessou. Não achei online, nem em catálogos.

Então, eu percebi que nem tudo pode ser comprado. Quero contar até a história da minha amizade com a Raissa, que saia comigo todas as sextas e eu dava muitos presentes a ela. Eu sabia o gosto dela, e sempre que via algo que combinasse, me sentia bem em presentar. Era na época que, além de trabalhar, meu pai me dava um dinheirinho extra. Dinheiro fácil, né? Só que eu arrumei meu emprego, meu pai me ajudou no apartamento e me mudei pra viver sob meu próprio sustento. Eu não podia pagar o táxi pra Raissa vir aqui em casa, nem mais o lanche dela ou comprar grandes mimos. Estava passando por aquela transição de vida e ela foi parando de vir aqui e sair comigo, e agora já fazem três meses que não a vejo.

Companhia, a gente até pode alugar, mas não comprar. E pra quem mora só, como eu, é um aluguel muitas vezes válido, mas que vai embora quando a gente começa a chorar de solidão. E ficamos ainda mais sozinhos.

É. Nem tudo pode ser comprado. Inclusive, o amor. O Pedro, poxa, a gente fica em todas as baladas. Mas nada além disso. Pedro já me disse que eu nunca vou passar disso com ele, porque ele não tem esse sentimento por mim. Podemos beber todas juntos, nos divertir nos melhores lugares, mas não podemos nos amar. Não que seja recíproco.

Nem mesmo nosso maior desejo é comprável. Ana, minha prima, não fala mais comigo. Erro meu, erro dela, problemas passados, mas ela não me perdoa. Já dei flores e cestas de chocolates como pedido de desculpas, mas Ana não responde, e quando me vê, passa como se não conhecesse.

E antes que me afunde em lágrimas nesse vazio de mim, nem mesmo eu me compro. Não importa o que eu tenha, nem o quanto eu tenha, mas isso não vai, jamais, me fazer uma pessoa melhor. Essa procura por matéria não trabalha alma. Comprar pode me fazer sentir melhor naquele momento, mas não me traz uma vida completa, feliz, em paz.

E hoje, a black me, sofre. Não quero nem sair de casa com as roupas novas, pra não correr o risco de parar no sinal e ver as crianças pedintes, me sentir ainda pior. Embora, só o pensar já me deixa em um estado crítico. Tanta gente que não tem nada daquilo que o dinheiro compre, mas tem tudo. Enquanto eu, coitada, comprei o mundo inteiro com o cartão, e não tenho nada, porque o essencial à vida humana não é comprável. É conquistável.

Nem meu emprego eu conquistei.

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