Nunca serei uma folha em branco


Parei de frente para o papel em branco e fingi que ali era a minha vida. E se eu tivesse mesmo uma chance de recomeçar, por onde eu iria? Sentiria medo e não me atreveria a riscar a folha por um bom tempo; é um calafrio, um temor de estragar o papel novinho. Uma vida novinha, e eu já começar errado? Não... me dói nos nervos só em pensar.

Não sei ainda se a vida está certa ou errada em não nos dar a possibilidade de, pelo menos uma vez na vida, ser uma folha nova. No máximo, a gente consegue apagar alguns detalhes, mas não acredito que seja tão válido porque a marca do lápis sempre fica. E se apagar demais, a folha rasga. Então as opções são bem limitadas para nós. A verdade é que vivemos por cima dos nossos erros e acertos, medos e conquistas. Por conta disso, é tão difícil mudar. E mais ainda, que essa mudança seja percebida. 

Afinal de contas, toda mudança começa por dentro; e primeiro a gente apaga, pra depois escrever, não é? Então antes de qualquer coisa, a gente mexe em tudo o que existe dentro de nós, e só depois que nossas ações começam a ser reflexo disto.

Mas me indigna eu não poder ter uma folha nova. Me indigna muito. Serei sempre reflexo do que já fui, e viverei sempre consequências do que já vivi. A lei do retorno explica muita coisa, mas quando ela se cala a gente não sabe o que fazer.

Então nos resta viver com todas as marcas de escritos apagados em nós. No final das contas, eles são uma lembrança de que é possível, ainda que sem recomeços, renovar nossas vidas. Nossos erros são memórias do que não queremos ser. Nossos erros são impulsos para acertos. E isso, e além disso.

Mas veja bem: continuo com aquela história de que não existe certo ou errado. E mesmo assim me atrevo a falar de erros e acertos. Tão simplesmente porque, fruto de julgamento nosso, o discernimento do certo e do errado é privilégio exclusivo de cada um. E se usei uma linguagem tão rebuscada foi pra suavizar um pouco a mensagem, mas é pra traduzir assim: a noção de certo ou errado é minha, não sua. O que é certo pra mim, é certo pra mim, não necessariamente pra você (nem mesmo para o "eu" do futuro).  Então o errado cabe apenas a mim avaliar. E apenas para mim ser direção.

Então, folhas velhas e usadas, corrigidas, amassadas e muitas vezes quase descartadas, a consequência de cada detalhe que a risca nosso ser é tão somente nossa. Que fique, então, o que tenho aprendido com as porradas da vida: viva conforme o seu entendimento, mas viva sempre de ouvidos abertos para o novo. Só não viva voltada para o que já foi apagado, mesmo que a marquinha ainda esteja lá.




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